quarta-feira, 15 de junho de 2011

Reflexão diabólica

É fácil falar de nós mesmos enquanto estamos vivendo e descrevendo apenas nossa superfície. Não posso, porém, deixar de notar que, por mais cristão e humilde que eu acredite ser, há um orgulho e um sentimento de superioridade extremamente enraizados em minha alma, escondidos de tal modo que, muito antes de eu tomar conhecimento de campanhas pró cotas e outros benefícios exclusivos para negros, me deixavam convicto e seguro, bem lá no extremo e obscuro fundo de mim que, por mais que compreendesse o valor sagrado da vida duma pessoa negra, com seus talentos e habilidades, eu sempre seria superior, por ser branco, por ter cabelos macios e claros, por parecer, enfim, mais gente. Podes me chamar de monstro, mas é assim que acabo me sentindo, sem querer, como dizia São Paulo em Romanos 7,19: " não faço todo bem que eu quero, porém, todo mal que não desejo", mas, essa convicção, que também me faz sentir superior e orgulhoso, um orgulho mudo e invisível até quase a mim mesmo, será essa convicção sutil um desejo? uma insegurança? uma maldade? Duma coisa agora sei: sou um homem muito ordinário e, confesso, estou tentando ser sincero até o cerne de minha alma nesse momento. Não serão campanhas, movimentos ideológicos ou pró qualquer coisa, que vão salvar minha alma, meu espírito. Somente eu o posso fazer, pelo meu livre arbítrio e responsabilidade. O que devo fazer? Por enquanto, ser sincero. Movimentos sociais só cuidam de interesses estranhos, alheios ao individual e sagrado. Movimentos sociais só mexem com aparências, só carpem e podam a superfície, enfeitam com laços e símbolos, e ensejam solucionar a insolúvel e complicada natureza humana. Quantas pessoas tratei mal, sem perceber, quantas pessoas fingi estimar, mas, no fundo, sentindo-me superior ou em melhores condições, quantas vezes dei bons conselhos a pessoas que passavam adversidades, sem ter idéia do que sofriam, e, bem no fundo, dizendo a mim mesmo: "Que bom que não estou nessa situação", quantas vezes afetei aparência de bom e de justo, de maduro, convicto de estar sabendo o que estava fazendo ao lidar com problemas dos outros, e, no fim, só o fazia por mim mesmo, para me sentir superior aos outros. É fácil viver de superfícies, difícil é o trabalho do coveiro, tendo que cavar fundo e mexer em todos os ossos e podridão.  Peço forças a Deus, A Jesus e a Maria.