Em seu importante romance, de título 1984, George Orwell descreve, entre outras técnicas de controle sobre as pessoas, uma espécie de estudo das expressões faciais, a partir do qual seria possível descobrir todo tipo de sentimentos e intenções por trás de movimentos musculares da face, e, por conseguinte, perseguir os inimigos do Grande Irmão e do Partido. Dostoievski, pelo contrário, muitas vezes colocava seus personagens num diálogo no qual, quando um falava sobre sua própria desgraça e adversidade, seu interlocutor, muito levemente, muito discretamente, inconscientemente, esboçava um quase imperceptível sorriso de satisfação.
Isso está em todo ser humano. Outro dia, um grande amigo meu, muito cristão, muito correto, muito próspero, me contava sobre a gravidez de sua esposa. Já tenho uma filha de criação há dez anos, decidi não ter mais filhos com minha esposa por motivos bem particulares e razoáveis, porém, sempre senti uma pequena pontinha de inveja quando sabia que meus colegas geravam filhos. Esse sentimento de inveja, bem tênue, dentro de mim, sempre causou certa agitação nas minhas entranhas, porque atinge diretamente meus princípios e a verdade das coisas que me são conhecidas. Esse grande amigo alguns dias depois de me haver comunicado, com grande entusiasmo, a gravidez de sua esposa, me traz uma informação razoavelmente preocupante, a de que sua ela havia sangrado um pouco, e, embora fosse diagnosticado como algo mais ou menos normal em toda gravidez, a preocupação e o medo permaneceram nele e em mim, mas eu sei, que muito levemente, um leve sorriso ficou patente em meu rosto. Terrível. Esse pequeno mal oculto parece mais terrível que um grande mal explícito. Por que razão fiquei assim? Ora, eu levo uma vida bem digna com minha esposa e minha enteada. Não tenho motivos para invejar ninguém. Porém, parece sempre haver um demônio infinitesimal circulando dentro de mim, quase invisível, quase insignificante. Esse demônio possui uma habilidade e rapidez tão efetivos que se interfere nos melhores momentos de minha vida e, como uma espécie de vírus, tenta envenenar minha comunhão com o bem, com as boas notícias que chegam até mim. Ele atrapalha minha visão das coisas boas como um enxame de gafanhotos atrapalha a visão de uma paisagem, parecendo sujar essa paisagem, ou se misturar a ela.
Preciso admitir: esse pequeníssimo demônio faz parte de mim, e não consigo exorcizá-lo totalmente, pois ele é a minha maldade. Por isso Cristo disse em Mateus 26-41: "Vigiai e Orai, para não cairdes em tentação."
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário